terça-feira, 31 de outubro de 2017

A indústria da teca e o setor moveleiro na economia do município

           No ano de 2002, iniciou-se no município o preparo para a instalação da indústria de madeira a partir da teca. As plantações começaram a ser desenvolvidas, sendo mais uma fonte de empregos e fluxo de capital em circulação.

           Com a produção de árvores de teca em alta, o grupo Nederlof Agro Florestal, com participação de capital holandês, inaugurou em fevereiro de 2010, a fábrica de beneficiamento de Teca, Soroteca, no município de São José dos Quatro Marcos. O objetivo era agregar valor à madeira que já vinha sendo cultivada pelo grupo na região há quase dez anos. 
Produção de Teca em expansão aquece a economia
           Para atender a demanda inicial, a empresa Soroteca contava com 9 hectares de área cultivada, o equivalente a nove campos de futebol. Elas estavam divididas em 11 fazendas distribuídas entre os municípios de Cáceres e São José dos Quatro Marcos. Com a previsão de ampliação da área plantada, os investimentos em novas plantações também eram perspectivas de ampliação, gerando emprego, renda e o desenvolvimento da região.
           Somente na área de plantio e na fábrica, em sua primeira fase, 150 famílias foram empregadas. Com a ampliação, a previsão era de que fossem contratadas mais de 100 pessoas diretamente, gerando outros 300 empregos indiretos.
           As marcenarias do município também acreditaram na nova fonte de renda e começaram a produzir móveis a partir da teca. Para alimentar a produção de madeira, pequenos sitiantes também passaram a cultivar as árvores, agregando valor à propriedade e renda para a família. Dessa forma, o setor moveleiro vem ganhando espaço no mercado de produto oriundos da teca.

As perspectivas econômicas na pós-queda do café e do algodão

No pós-queda do café e do algodão permaneceram as atividades econômicas do gado de corte e gado leiteiro, e, ainda, a agricultura familiar, que começava a ganhar fôlego no município.
Com a formulação das políticas agrárias, a partir de meados da década de 1.990, visando principalmente conter o êxodo rural, começaram a surgir os assentamentos e as pequenas propriedades agrícolas. As leis voltadas a fixar o homem no campo foi assegurando direitos e incentivos. E obtinham êxitos.
Mas mesmo obtendo êxitos no setor primário, a produção agrícola foi pouco expressiva e destinada basicamente ao autoconsumo e ao comercio local e regional. A produção de hortifrutigranjeiros, conforme João Antônio Tosti, era absorvida pelo comércio local e regional, ou seja, as culturas granjeiras e temporárias, como arroz, feijão, milho e mandioca, eram destinados ao consumo interno.
Em relação às culturas de hortaliças, 70% de sua produção tinha como destino o consumo interno e 30% para atender o consumo regional. As culturas perenes, como café, 80% de sua produção era absorvida pelo consumo interno e 20% para o comércio regional. No entanto, nas culturas de frutas, apenas 30% eram destinadas para o mercado interno e 70% era para exportação, atendendo municípios como Cáceres, Rondonópolis, Cuiabá e outros da região.
A produção agrícola do município no ano de 2001
Em relação à pecuária, o destaque veio na criação bovina, que em 2002 totalizou 147.533 cabeças. O criatório utilizado era o semiextensivo. Dos tipos de criação, tinha-se cria, recria e engorda, destacando as raças nelore e cruzado.
A pecuária leiteira era a principal fonte de economia do município e estava associada aos pequenos produtores, sendo desenvolvida com baixo nível tecnológico. Sua produção era comercializada diretamente pelos produtores com os consumidores, atendendo o consumo interno, ou destinado à industrialização nos laticínios da região e no Laticínio Vencedor, instalado no setor industrial do município de São José dos Quatro Marcos.
O gado de corte era mais para o abastecimento interno, sendo sua exportação ainda pouco expressiva. De acordo com a Secretaria Estadual de Fazenda, a carne consumida pela população era classificada como excelente qualidade, devido ao tratamento e cuidado com os animais e os critérios higiênicos adotados nos matadouros.
A evolução re rebanho bovino no período de 1987 a 2002
As atividades pecuaristas eram as grandes responsáveis pelo maior fluxo de capital no setor econômico de São José dos Quatro Marcos. O gado leiteiro, em 1987, era em média 51% do rebanho bovino, e, em 2002, representava em média 32%. Porém, comparando a quantidade de espécies bovinas em produção de leite e a quantidade de leite produzido, de 1987 a 2002, houve uma melhora na qualidade dos animais.
A melhora na qualidade dos animais se deu em função do trabalho do Sindicato Rural do município, da Secretaria Municipal de Agricultura e do Indea local, que ministravam cursos mensais sobre os cuidados com o rebanho bovino.
Além da pecuária bovina, também existiam outros tipos de criações, que vinham se destacando e gerando renda para os produtores.
A pecuária do município entre os anos de 1999 a 2002
Outra atividade explorada no município era o extrativismo vegetal e mineral, que eram pouco desenvolvidos, mas que o município possuía. Segundo relatórios da empresa de mineração Manati Ltda, que teve seu auge na década de 1990, havia uma vasta quantidade de ouro, argila, calcário, madeira de lei, plantas medicinais e outros ainda não explorados.
O setor da indústria frigorífica, desde 1987, atuava abatendo 1000 cabeças de bois diariamente. Sua produção era destinada para a região Sudoeste e Sul do Brasil, países da Europa e Estados Unidos da América e empregava cerca de 900 funcionários.
A indústria de laticínios ocupava o segundo lugar. Apesar de recém instalada, tinha capacidade de processar 160 mil litros de leite ao dia. Desse total, atuava com 90 mil litros ao dia destinado à produção do queijo mussarela, voltada ao abastecimento do mercado do estado de São Paulo.
Não demorou muito e o laticínio iniciou também a produção de leite em pó para atender indústrias de biscoitos do estado de São Paulo. Para que isso acontecesse, ocorreu um processo de ampliação da capacidade de produção da empresa, o que refletiu num maior giro de capital e empregos diretos e indiretos no município.
As indústrias emergentes no município de Quatro Marcos
No setor terciário, o comércio estava em pleno desenvolvimento e contava com 516 estabelecimentos distribuídos em diversas modalidades, destacando-se agências bancárias, produtos agropecuários, alimentícios, eletrodomésticos, móveis, vestuários, calçados, perfumaria e cosméticos, farmácias, estúdios fotográficos, audiovisuais, restaurantes, churrascarias, lanchonetes, bares, armarinhos, papelarias, livrarias, combustíveis e lubrificantes, ferragens, materiais elétricos e de construção, veículos e motocicletas, alfaiatarias, panificadoras e confeitarias, cerealistas, danceterias e outros de menor porte.
A chegada e instalação da Faculdade de Quatro Marcos – FQM, refletiu positivamente na movimentação financeira do município. Os imóveis, principalmente nas redondezas da faculdade, foram valorizados devido à grande procura, principalmente os residenciais. Depois do funcionamento da faculdade ocorreu um crescimento socioeconômico, advindo da implantação de empresas, comércios e prestadoras de serviços que atenderiam a demanda dos setores influenciados pela unidade de ensino superior.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

As quedas bruscas da economia do município até meados de 1990

         Durante o processo de emancipação política e administrativa de São José dos Quatro Marcos, o município teve como fonte econômica na sua base de desenvolvimento, o setor primário; especificamente a lavoura de café, devido a boa qualidade do solo, cultivado em sua maioria por pequenos proprietários.
         Esses pequenos proprietários surgiram em decorrência da grande produção cafeeira, e, posteriormente, incentivados pelo primeiro prefeito eleito pelo voto direto do povo, Durvalino Peruchi e pelo padre Georges Martin, que na época apoiaram os agricultores no plantio desse produto em grande escala, levando o município ao auge dos grandes negócios.
Cafezal no sítio do senhor Pedro Evangelista em 1999
         A agricultura cafeeira, implantada desde a formação do município, por volta de 1970, propiciou a obtenção de altos lucros por parte dos produtores, transformando a região numa área de atrativos populacional, proporcionando seu desenvolvimento socioeconômico, tanto no campo quanto na cidade, até meados da década de 1980.
         De acordo com o primeiro prefeito Antônio Alvarez, nomeado pelo governador, São José dos Quatro Marcos chegou a ser o terceiro município em arrecadação, estando à frente de Cáceres, município polo da região. A partir de meados da década de 1980, começou o êxodo rural e urbano no município, devido a decadência do cultivo do café.
         Os motivos que levaram à crise no campo, segundo o então secretário de Agricultura João Antônio Tosti e o prefeito da época, Antônio de Andrade Junqueira, foram vários, sobressaindo a desvalorização do preço do café no mercado. Também a constante redução nas produções agrícolas, devido ao modo de agricultura praticado sem preocupação com a lixiviação do solo, usando tão somente os fertilizantes para restauração, foi outro motivo grave. E, por fim, a redução dos índices pluviométricos, dentre outros fatores essenciais para a manutenção das culturas agrícolas, como nos anos de outrora.
         No município havia café por todo canto dando frutos. E eram tantos que a população não falava em outro assunto, surgindo até uma cooperativa dos cafeicultores. Mas com a crise, a alternativa dos produtores foi substituir as lavouras de café por pastagens ou por plantações de algodão. E os pés de café foram sendo arrancados, cortados, para dar espaço ao que acreditavam ser mais rentável naquela época.

Frigorífico foi construído no município em 1987
         O gado de corte foi ganhando espaço e sendo comercializado no frigorífico instalado a poucos anos no município. As lavouras de algodão passaram a ser o ouro branco, com a instalação de três algodoeiras (Teka, 4M e Centro-Oeste) no ano de 1991, que comprava toda a produção, fazia o descaroçamento e transportava o produto até o mercado industrial dos estados de São Paulo e Goiás.
         Alguns anos mais tarde surgiu a praga do bicudo, que atacou as plantações de algodão, devastando-as por vários anos seguidos. O uso de inseticidas e agrotóxicos era uma saída para salvar as lavouras, porém, eram produtos de custo elevado, e não era viável para os pequenos produtores manterem as lavouras algodoeiras. Em decorrência desse custo, aliado ao valor pago pela mão-de-obra, mais o transporte, produzir algodão já não era um bom negócio.
Algodão na comunidade da Salvação - Família Uliana
         Outro fator que desencorajava os pequenos produtores eram os empréstimos bancários, que geralmente só beneficiavam os grandes produtores, e, por consequência, não facilitava aos pequenos a aquisição de sementes e insumos agrícolas de boa qualidade. As empresas locais ofereciam sementes de algodão de má qualidade, o que começou a ocasionar uma baixa e muito prejuízo na produção.
         Mais uma vez ocorriam mudanças bruscas no campo e as lavouras de algodão foram sendo substituídas por pastagens com a criação do gado leiteiro, incentivado por pecuaristas que já tinham introduzido o criatório nas suas terras. E pela presença de um laticínio recém instalado no município.
Laticínio se instalou no município na década de 1990
         As algodoeiras faliram por volta de 1994, abalando a economia do município. A inadimplência com os produtores obrigou até mesmo os grandes produtores a desistirem do plantio de algodão e se aventurarem na pecuária leiteira.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A história da escolinha pelos olhos do professor Inivaldo Mila

           Segundo o pioneiro Paulo Ferreira Castro, muitas famílias chegavam às terras onde atualmente é São José dos Quatro Marcos. E as famílias, principalmente as que tinham mais filhos, passaram a se preocupar com o futuro deles. Como tudo era mato, o acesso à Cáceres era difícil e os filhos precisavam estudar.
           Foi então que algumas famílias, lideradas por José Rosa e Valdemar Carvalho (irmão do Indalécio), criaram a ideia de se ter uma escola na localidade para educar seus filhos. Além das famílias dos dois líderes, o grupo era composto pelas famílias de Geraldo (pai do seo Fidelis), Maurício Simeão Gouveia, Gerônimo Prata (sogro do seo Fidelis), Gerônimo Marangão e Antônio Murilia.
           Como já existia um ditado entre as famílias das redondezas, os encontros se davam nos quatro marcos (local de cruzamento de duas picadas que tinham quatro marcos de balizamento das terras de Zeferino José de Matos, Miguel Barbosa do Nascimento e Luiz Barbosa). Paulo Castro lembrou que jogos de futebol, caçadas, pescarias, corretores de vendas de terras, entre outros, marcavam seus encontros nessa localidade dos balizamentos. E foi ali, o local escolhido para as famílias construírem uma escolinha para seus filhos estudarem.
           Inivaldo Mila, o professor que não desistiu, recordou que vieram em 1966 para a região de São José dos Quatro Marcos para plantar café, num sítio que seu pai havia adquirido. Segundo ele, era só mato. E a escolinha era numa esquina. E tinha um campinho. E a localidade era derrubado novo. O resto era só mato. Ele chegou a frisar que não havia mais nada, a não ser mato na região.
           Os relatos do professor Inivaldo lembra que já havia um significativo número de famílias residindo pela região e que as crianças não iam para a escola por falta de professor, ninguém queria dar aulas, e, por isso, a escolinha estava fechada. “Os pais das crianças ficaram sabendo que eu tinha estudo e me convidaram para dar aulas; eu fiquei surpreso porque eu nunca pensei em dar aulas, mas aceitei”.
           A escola, segundo Inivaldo, era feita de pau-a-pique, barreada e coberta de tabuinhas. Ela tinha lousa e mesa de tábuas rústicas e os bancos eram fincados no chão. Chamava-se Escola Rural Mista Duque de Caxias, onde mais de trinta meninos e meninas, de primeira à quarta séries, estudavam juntos, já que a escolinha tinha sala única.
A escolinha, os professores e os alunos em 1967.
Para assumir a sala de aulas, Inivaldo Mila precisou fazer um curso para ser professor habilitado. E fez um curso de férias. Assim, em 1967 a escolinha foi reaberta. E como o número de crianças era muito grande, ele convidou uma moradora de nome Maria Luiza Barbosa Alfredo para auxiliá-lo. E dividiram as séries. Mila ficou com as crianças da 3ª e 4ª séries, no período matutino e Maria Luiza com as crianças da 1ª e 2ª séries, no período vespertino. Mila tinha estudado até a 4ª série e Maria Luiza até a 3ª série.
Os professores Maria Luiza e Inivaldo Mila
         Inivaldo Mila e Maria Luiza Barbosa Alfredo deram aulas por quatro anos. Mila buscava material pedagógico em Cáceres. Até o salário buscava em Cáceres a cada três meses, devido às dificuldades de locomoção. As matérias lecionadas eram língua portuguesa, matemática, ciências e educação moral e cívica. Tudo com ênfase na leitura e escrita. Era tudo noção básica que deveriam sair da escola sabendo.
         Para Inivaldo, “todo mundo queria aprender, todos vinham para aprender mesmo. Era povo simples, humilde, era gente da roça. E não tinha desistência, não. Estudavam até o exame fina, que era um apanhado de todas as coisas que foram dadas durante o ano. A prova vinha de Cáceres, era elaborada pelo delegado de ensino, e como eu que buscava os materiais da escola, eu que aplicava o exame aqui”.
         Os alunos concluíram a 4ª série e ficaram três anos sem aulas por falta de professor acima dessa série. Mas em 1973 chega à região, os irmãos Lessi. Desta feita, Maria Lessi e José Lessi, professores formados no estado de São Paulo, assumem as aulas de 5ª à 8ª séries.
José Lessi,em 2010, comentou sobre sua chegada ao município 
Maria Lessi,em 2010, comentou sobre sua chegada ao município